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Manifesto da irregularidade

Intróito
Outro dia alguém veio me chamar a atenção para um verso que quebrava a rima. Quebrava o ritmo. Sinceramente, não acho que o essencial numa poesia seja a rima, a forma ou coisas condizentes. Tanto que raramente me preocupo com métrica ou com rima ou então o que soe “bonitinho” ou “agradável” aos ouvidos das pessoas. Tento dizer o que precisa ser dito. Não me importa quantos verbos, subjetivos ou adjetivos necessite. Nem mais nem menos. Em decorrência segue abaixo o que chamo de “Manifesto da Irregularidade”.

Manifesto da Irregularidade

1) A sugestão é o fato preponderante em todo o universo. Se sugerimos por meio de versos ou imagens tanto faz.

2) O fato como ele é pode ser mais complicado do que a sugestão do fato.

3) O Digerir do universo só pode ser observado em formas que não são certas… Ou então formas condizentes ao sentido.

4) O “após ler uma poesia” é essencialmente análogo ao “após deglutir uma refeição”. Pois por isso que os que vieram antes de mim disseram de “Antropofagia”: O elemento humano é alimento primoroso de qualquer poeta ao se propor uma poesia. Não importa o quê. Há uma fagia catabólica do mundo na mente do poeta, quase nunca resultando em algo fácil de entender, pois por isto saem as formas irregulares.

5) As formas são proporcionais ao nível da digestão da realidade. Aqueles que trituram tudo muito bem, enxergando na realidade um meio fácil – estes acabam dando importância sobremaneira ao fator que conhecemos como “belo”, o que não passa do esteticamente aprazível e que pode ser desprezível dependendo o sentido que queremos ao poema.

6) “Una creek du croup”=”Uma queda da tosse”. Ou Laringotraqueobronquite. Isso é poesia? A pobre criança acometida por um mal não pode falar e…? Assim que se sente o poeta quando não pode se expressar como quer. Usando a forma mais apropriada do que tem a dizer, em sua própria opinião. Quebrar versos é um recurso apenas válido quando o poeta e somente o poeta quer. Pessoa alguma no mundo, além do próprio autor, tem o direito de moldar como o poeta quer escrever. A forma está lá. Interprete como puder. Isto os leitores podem fazer. O que eu posso fazer é mostrar que a forma não está condizente com o sentido. E isto é o máximo.

7) A poesia é um instrumento de transmitir ideias. E, a grande maioria, tais como vêem a nossas mentes devem ser postas no papel, ou na tela. Não é um texto que pretende lógico ou fácil. Não quero fazer bonito para menininha gostar de mim. Claro que, algumas vezes, faço. Entretanto é menos frequente que o denso fluxo de consciência que, quando exposto, serve como um grito surdo.

8.) As letras são códigos feitos por humanos. Os humanos manejam as letras como bem entenderem desde que se entendam. Um poeta maneja as letras de acordo com sua necessidade. Somos crianças que não podemos gritar. Somos o Estado doentio do coma social. Um mundo enegrecido pelo fantasma das luzes gloriosas de uma razão instrumental desditosa.

9) Como na escuridão tudo é caos, na forma tudo é válido. Qualquer forma de organização. As luzes das formas restritas se não falsas soam, pelo menos, artificiais. E nas luzes opacas da razão vemos formas forçadas. Não há um soneto que seja natural. Não há uma forma que não foi cortada, espremida, batida, torcida, convalida, detonada, pisada em cima, mastigada, triturada, disformada, destoada, alterada, conformada, modificada, ao se colocar em versos embutidos ou com receitinhas preconcebidas. Duvido até que Camões não tenha tido problemas com isso: dizer não exato do que queria se expresso, transmitido.

10) As formas irregulares em poesia acompanham as formas da Natureza. E a poesia complexa, concreta, irregular, sugestiva, praieira, urbana, de primeira ou não, subentende condizer forma e conteúdo. Ainda que na base seja a forma de poesia como a tradicional, o que não se pode ter é um poeta que seja subjugado às formas. Isso jamais. Independente do que o público queira… Independente do que dê dinheiro. Fazemos arte não pela arte, não pela forma que se convencionou chamar de arte… A arte serve-nos como instrumento de libertação do espetáculo de uma vida pseudo mutante.

Fechamento

Do pseudo movimento
E não somos nós: Não somos os sós. Somos a massa pensante de poetas concretos e irregulares. Somos aqueles que a mídia não conseguiu moldar a si. Pois não nos moldamos a coisa alguma. Não somos para a princesa filha da classe média ler de primeira, entender e decorar.
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Da minha parte
Não sou Vinícius de Morais: não escrevi o Soneto de Fidelidade, mas o parodiei. Abomino o trabalho de Bilac, com sua apologia a leis idiossincráticas, por serem no mínimo contraditórias, de um Estado vão. Também cansei de ser romântico, simbolista ou árcade, ou modernista. Ou de qualquer outra vanguarda. Vanguardas não existem; existem ecos suprimidos de um futuro mal expresso.

Portanto eu uso eles usam nós usamos vós usais tu usas formas irregulares.

  1. Henri..

    Não pude evitar perceber q uma parte considerável desse “sofrimento”, sentido e causado a terceiros, está ligada diretamente à falta daquilo que chamo de visão global.
    E ter essa visão,é estudar e conhecer os outros “bolsões culturais” além daquele em q você se encontra no momento, e saber q se é livre para “migrar” dentro e fora da irregularidade!

    De acordo.
    Abraço Fraterno!

  2. É! Realmente é triste quando determinadas pessoas entendem que poesia é só algo coberto de métrica (a detestável métrica poética)e cheio de palavras medidas para, assim, o texto se enquadrar em determinado estílo tolo. Às vezes escrevo algo ritmado, mas não por me preocupar com métrica, mas sim porque o que quero dizer permite tal atitude. Geralmente escrevo livremente, sem me preocupar com rima e coisa e tal. Já me criticaram por causa disso… não ligo, continuo escrevendo da forma que me agrada.

    Congratulações

    Anderson

    • Cara, concordo que deve haver liberdade. Poesia é uma forma livre, não deveria respeitar fórmulas quadráticas, mas encaro a questão da métrica e do ritmo como um desafio. O que me remete a uma outra pergunta: existe o poema perfeito? Cada poema pode ser perfeito pra quem o fez, ou há um poema perfeito para quem o lê. Eu gosto de misturar tudo, se eu pudesse construiria poemas estéticos, cujo significado gerasse múltiplas interpretações, dependendo do impacto necessário, com ou sem métrica, mas que as palavras conduzissem o leitor como uma melodia conduz um pensamento.

      Ótimo texto cara!

      Abraz

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